Depois de uma noite mal dormida, devido a dores terríveis no meu braço, apercebo-me do dia de Inverno que faz lá fora... Sinto-me exausta e sem vontade absolutamente nenhuma de me levantar, agarro no telemóvel (como que fazendo um cadinho de ronha no quentinho da minha cama) e ao ler a mensagem que me tnha sido enviada as 5h10 da manhã, sorrio completamente deliciada...
Levanto-me, finalmente, e preparo-me para a minha rotina... assim que poiso um pé no chão penso... "Ai que vontade de ir aturar a prof de português, mais as suas teorias latinas e aquele Cesário Verde, tão interessante", mas não foi este pensamento que fez morrer o sorriso que estava estampado no meu rosto!
Após terminadas as aulas, sinto uma tristeza a invadir-me o espirito... uma sensação inexplicável, um aperto no coração... mas assim que chego ao silêncio estranho da minha casa, oiço uma voz doce que faz desaparecer por completo a tristeza que me invadia... uma voz de anjo, um anjo protector que desceu à terra para me salvar de todo o terror em que estava mergulhada...
Depois desta breve vísita ao mundo dos anjos, fico muito mais animada e dedico-me a iniciar as minhas tarefas, com muito mais energia e uma leveza interior...
Sento-me na cama, olho lá para fora, através da janela... Ao ver as gotas de água a afugentarem os pássaros... O céu cobre-se de escuro, mas ao mesmo tempo de uma tonalidade prateada, devido aos raios de sol que ainda tentam penetrar pelas nuvens... Encontro-me pensativa e abstraída do mundo civilizado onde me encontro, aquilo que me apetecia era estar no meio de uma ceara alentejana, com a chuva a cair-me no rosto...
Os meus pensamentos voam até uma surpresa que me chegará em breve, por mais que peça algumas pistas, elas não me são concedidas... Encontro-me ansiosa pela chegada do correio, pois assim que tiver a minha encomenda, pretendo recolher-me no meu cantinho e finalmente descobrir o que de tão precioso vem dentro de uma simples caixa de cartão...
O meu momento de reflexão é interrompido pelo romper barulhento da minha irmã... OHHH NÃOOOO... Lá vem aquele maldito CD da "Moli Beat" e da "Ana e os 7"... Já mereço um cadinho de descanso depois de um fim-de-semana inteiro a ouvir sempre o mesmo, não acham?
De repente sou surpreendida por um convite um tanto ao quanto surpreendente... Que me deixou boquiaberta, mas ao mesmo tempo muito, muito, muito feliz...

Olho em meu redor... encontro-me rodeada por árvores gigantescas, que cobrem o lindo céu azul deste inexplicável dia de Inverno... Não faz frio, está aquele quentinho de início de Primavera, coisa que é estranha nesta altura por estas bandas...
Percorro um caminho indefínido por entre as árvores, oiço o estalar de algumas folhas secas e da caruma dos pinheiros por baixo dos meus pés... É um sítio místerioso, mas algo dentro de mim, convida-me a seguir o caminho e a não olhar para trás... O cantar de alguns pássaros é o único som reconfortante no meio desta escuridão...
Passados alguns quilómetros percorridos, tenho sede e penso "Devia ter trazido uma garrafa de água comigo"... Sinto-me deprimida, julgo não ser capaz de alcançar um sítio mais reconfortante do que aquela escuridão... Dou mais uns passos e começo a ouvir o intensificar do canto das aves, ando mais rápido... Começa a aclariar... Começo a correr... Oiço água... Corro mais depressa...
Deparo-me com uma planície imensa... Descalço-me... Corro... Sinto a erva nos meus pés, abro os braços, olho para o céu... Sinto-me alíviada... Corro até à cascata... Mergulho...
Quando venho a superfície deparo-me com o ser mais MARAVILHOSO, ÚNICO e BELO à superfície da terra... Baixo os olhos e sorrio envergonhada...

Sento-me no parapeito da janela, olho lá para fora e o que vejo é um luar lindo, completamente inexplicável que faz estremecer só de olhar!
Saio de casa sem fazer barulho, pois já se encontram todos a dormir... Sinto a humidade gélida a abraçar-me... Vou caminhando e chego ao pé de uma pequena ribeira... Sento-me na sua margem... Oiço, vejo e sinto a água a correr, fresca, pura e bela...
Comparo o correr daquela pequena ribeira ao correr de uma vida... Onde todos os dias são sao diferentes e constituem uma vida dentro da nossa própria vida...
Assim de manhã nascemos com o nascer do sol, durante o dia crescemos com todas as banalidades do nosso quotidiano e à noite morremos...
Deito-me sobre a erva húmida pela geada que se faz sentir... Arranco um pequeno malmequer... Contemplo a sua simplicidade e beleza natural... Levanto-me, volto para o meu quarto... Para a minha cama... Coloco o malmequer dentro do livro que leio, ele será a marca do renascer de um novo ciclo da minha vida......
Sinto-me agoniada, triste, derrotada, inútil... Sinto-me o NADA...
Cada vez mais começo a recear os meus "feelings"... Cada vez mais receio expressar por palavras aquilo que sinto ou que penso... Como é possível algo me acontecer sempre que o pressinto?! Já não sei que fazer para evitar o terror que sinto quando os meus presságios me invadem a mente, o espírito, o coração...
A tristeza... A preocupação... O terror consomem-me... As lágrimas rolam pela minha face... Tremo... Preciso da segurança, da protecção que está tão longe de mim...
Ao olhar em me redor penso... "Não Lena... PÁRA... PÁRA... nao penses em nada... Esquece-te do que aconteceu hoje, do que tem acontecido nestes últimos dias... Esquece-te do que pode acontecer no futuro... ESQUECE... EVITA... ESQUECE..."
Mas não sou capaz... O pior é verificar que já não consigo evitar os presságios e constatar que eles se tornam realidade... Principalmente os negativos...
Dou comigo a REZAR... Para que NINGUÉM próximo ou mesmo longe de mim... NINGUÉM mesmo que eu odeie ou que seja a pessoa que eu mais ame... NINGUÉM... NINGUÉM... Passe pela experiência que estou a passar...
Pois acreditem... é... TERRIVELMENTE ASSUSTADOR.... :(
Hoje fiquei surpresa... Quando acordo e me deparo com o mais brilhante e radioso céu azul e o mais magnífico e espectacular sol que algum dia o Inverno nos poderia propocionar...
Levanto-me... Arranjo-me... nada melhor do que aproveitar este esplêndido dia para passear pelos campos que rodeiam a minha pequena e pacata cidade, mas que se encontra envolta em beleza... Ima beleza incalculável...
Enquanto caminho em direcçao à serra, os meus pensamentos fluem sobre a minha região, a minha cidade... Todas estas paisagens magníficas que me envolvem, que me conseguem transmitir a paz de espiríto e a tranquilidade que tanto anseio.
Não nego que todo o nosso país é extremamente bonito, mas cada região tem a sua beleza natural...
Fazendo uma revisão mental por todos os pontos de Portugal e não há nada que me faça mudar de ideias... Aqui, nesta mistura de clima, nesta mistura de cheiros, nesta mistura de fisionomia... Nada é comparável ao pobre e simples Alentejo...
Chego ao cimo da serra a paisagem, actualmente, é terrivelmente desoladora... Se de um lado ainda conseguimos visualizar a beleza de toda esta região, do outro o que é que nós vemos?! Toda aquela Beleza transformada em NADA... Em cinza... Tudo negro, tudo triste... Esta imagem faz-me lembrar o Verão sobressaltado e agoniante que tivemos... Com a ameaça constante do fogo a rodear a cidade, a consumir o tesouro da nossa região... Recordo-me do cheiro a queimado que pairava no ar, do calor sufocante que se fazia sentir...
Encontro-me no ponto mais alto da serra, em cima de uma pedra, dou uma volta de 360º e aquilo que me vem à mente é apenas a descrição por palavras, que parecem ocas, perante a beleza inimaginável do que vejo:
É Alentejo - mas não é Alentejo... Tem traços de Beira, outros do Ribatejo. É menos plano, mais verde, menos amplo, mais variado. Habitado por um povo de falar ainda mais marcado, o Alto Alentejo, hoje distrito de Portalegre..
É Alentejo - no melhor que o Alentejo tem e oferece... A capacidade de deslumbrar, a simplicidade contagiante das pessoas, dos modos, das paisagens e das terras Habitadas...
É Alentejo - mas não é Alentejo...
É Alentejo - mas contaminado pela frescura do Norte...
É Alentejo - no melhor que o Alentejo tem e oferece...
É ALENTEJO... APENAS E SÓ... O SIMPLES ALENTEJO...

Encontro-me sentada junto a um pequeno rio, o céu está lindo, de um azul resplandecente, um azul inigualável... E o sol encontra-se no seu auge..
Faz calor, a única coisa que ajuda a superar este sufoco é a proximidade com a água...
Deito-me sobre a relva, sinto a sua frescura, embora seja escassa... Nem mesmo o barulho circundante de crianças a correr me incomoda, leio tranquilamente enquanto brinco com a relva e oiço uma música suave...
De repente vejo-me a ser abraçada por uma criatura que nunca tinha visto na minha vida... Olho em meu redor, mas todos parecem estar extremamente entretidos com os seus afazeres... A estranha criatura olha para mim, o seu olhar é doce e meigo, transmite-me paz e tranquilidade, para já não falar da sensação de segurança total... O seu sorriso é tranquilizante, quando olho à minha volta reparo que já nao me encontro no mesmo lugar...
Agora o que me rodeia é um mar imenso de flores, com seus aromas muito característicos... À minha chegada todos eles param e me olham com respeito, admiração e devoção... Não percebo o que se passa... Até que me apercebo que estou no Reino das Fadas...
- Eu sou a Feather... Fui buscar-te pois tens uma missão a cumprir junto de nós...
Ainda mais confusa fico... Do nada aparece um conjunto de borboletas que faz um bailado único e singular em meu redor... Vou-me transformando a pouco e pouco...
Torno-me numa pequena fada...

- Não mereço tamanha honra... Há pessoas muito melhores e com muito mais talento para esta missão...
- Acredita em ti, pois o teu valor é incalculável. Não foi por acaso que te escolhemos, és uma pessoa especial, com um carisma único. Se há pessoa capaz e que o merece, essa pessoa és tu...
Olho o céu nocturno... A lua brilha no seu maior esplendor, as estrelas, essas, parecem pequenas luzes, que iluminam e aquecem a noite gelada...
Os meus olhos razam-se de lágrimas... Tento controlar-me, mas torna-se praticamente impossível... As lágrimas rolam-me pela face suavemente, conseguem assim aquecer as minhas bochechas, que devido ao frio ardem, mas ao mesmo tempo aquecem-me o coração...
De novo volto a estar rodeada por borboletas... Borboletas nocturnas que em meu redor fazem soar uma melodia minha conhecida... Os meus sentidos despertam e apercebo-me que a música que elas tentam reproduzir é "I don't want to miss a thing" (Aerosmith)... Aí soluço baixinho, o coração apertado... Mil pensamentos vagueiam pela minha mente, olho para o céu, para a estrela que brilha com maior intensidade... Peço um desejo com todas as minhas forças... De seguida olho a lua, imagino um rosto que me aquece o coração... Levanto-me do chão... Sorrio ao reparar num pequeno malmequer junto de mim... Apanho o cabelo e coloco-o a adornar o meu rosto...
Passeio sozinha no meio de uma floresta, do nada vejo-me rodeada pelo fogo... Um fogo rasteiro que me rodeia por todos os lados e por mais que eu tente fugir, ele cerca-me... (É apenas um sonho, mas que me parecia muito real)-
Há três noites que sonho que estou deitada num campo, coberta de malmequeres... Tudo o que me rodeia são malmequeres brancos...
Se por um lado o fogo pode simbolizar perígo, por outro também pode simbolizar sorte, visto que sou de signo Leao e o fogo é o elemento principal deste signo...
Já os malmequeres, segundo me dizem, símbolizam alegria... Mas ninguém me dá certezas...
Será que não há por aqui ninguém que me possa ajudar?
Hoje acordei com uma vontade enorme de ir correr, de espairecer um bocadinho, de esquecer tudo o que me tem perturbado nestes últimos tempos...
Preparo-me para sair, de súbito lembro-me que tenho de telefonar a alguém... Mas penso "vou deixá-lo dormir mais um pouco..."
Calço-me, apanho o cabelo num rabo de cavalo, coloco um boné... As calças são à pirata, o que realça os músculos das pernas que muita inveja provocam, visto uma sweat cinza e coloco uma mochila às costas apenas com o essencial (água, telemóvel, identificação pessoal, uma toalha, um pequeno pacote de bolachas e o protector para a minha cicatriz).
Despeço-me dos meus pais e ponho-me a caminho, mais uma vez dirijo-me para a serra, desta vez para uma pequena Igreja, à qual o fogo não chegou... Enquanto corro/caminho os pensamentos voam até à Feather e tudo aquilo que me tinha sucedido... Ainda me pergunto o porquê de ter sido eu a escolhida... será que alguém tem uma boa resposta?!
Chego ao meu destino... Pouso a mochila no chão, faço alguns alongamentos, uma vez que o caminho é longo... Bebo água, limpo o suor, busco o telemóvel... Começa a tocar, passados os quatro fatídicos toques oiço:
- Siimmm?!
- Olá Dorminhoco, já são horas - e faço um sorriso enorme.
A conversa prolonga-se animada, sinto-me feliz, aliviada... Quando me preparo para abalar, vejo chegar um carro, sinto-me um pouco receosa pois encontro-me sózinha num sítio isolado, mas ao mesmo tempo sinto-me protegida...
É um casal jovem com uma pequena criança... Continuo a arranjar as minhas coisas, evito olhar para que não se sintam ameaçados/incomodados...
Quando vou começar a correr a pequena menina dirige-se a mim, devolvo-lhe a bola que deixara fugir... Sorrio-lhe, faço-lhe uma festa no rosto, dou-lhe um beijinho na testa... Ela sorri radiante....
- Adeus pequena Fada...
Fico surpresa perante estas palavras vindas da menina, sorrio e continuo a correr... Penso enquanto caminho para casa: Terá sido o facto de adorar tanto crianças que terá pesado perante a escolha de mais uma fada?

Acordo a meio da noite com um barulho estranho... Olho em meu redor e reparo que a minha irmã está agitada, sobressaltada, A sonhar com algo que a perturba... Ajoelho-me ao lado da cama, faço-lhe festas no rosto e no cabelo para a acalmar...
Noto a tranquilidade a voltar, aproveito vou à casa de banho e beber um copo de leite à cozinha...
Quando regresso ao quarto, olho para cima da cama e vejo um bilhete:
"A tua missão começou, estás a ir no caminho certo... Segue apenas o teu instínto... E nao mudes nunca..." - assinado Feather
Fico pasmada com o que leio... O sono acaba por desaparecer... Vou em busca do meu cãozinho, que chegou de longe e ao mesmo tempo de tão perto...
Os meus pensamentos são dispersos, nisto a minha irmã sonha alto e eu consigo perceber:
"Ela é uma fada... Uma fada madrinha... E é a minha madrinha..."
Será esta a minha missão?
É domingo... Acordo completamente descansada, sorrio ao ouvir o chilrear dos pássaros lá fora... Estou com perguíça de me levantar, mas o silêncio (nada habitual) da minha casa desperta-me a curiosidade...
Volto-me para a cama da minha irmã e ela já não se encontra deitada... Abro a persiana, está um dia lindo... Chego à sala e vejo um bilhete "Lena, fomos para a quinta, voltamos mais logo, se precisares de alguma coisa telefona..." - mãe.
Fico radiante, um dia inteiro sózinha em casa... Volto ao quarto ligo o computador, ligo-me a net... Tal como suspeitava o "Dorminhoco" ainda está no seu sétimo sono...
Abro a caixa postal do e-mail, vou comer qualquer coisa, pois o meu estomâgo já dá voltas... Quando regresso ao quarto, abro a janela... Agarro nas coisas e vou tomar duche...
Regressada ao quarto sento-me ao computador e vejo a seguinte mensagem "Sabemos que estás ansiosa por descobrir o que te levou a ser a uma fada e qual a tua missão... Esperamos por ti na serra" - Feather
Nem perco mais tempo... Desligo o computador, arrumo o quarto, telefono à minha mãe a dizer que vou correr, coloco algumas sandes na mochila e parto directa à serra...
Quando entro na sua escuridão começo a acalmar... Sinto-me protegida, entro na clareira... Todos me olham com respeito, sorrio tímidamente, mas avanço decidida até à Feather... As minhas borboletas rodeiam-me e sou transformada em fada... Sinto-me bem e feliz...
"A razão porque te chamámos aqui, foi por termos chegado à conclusão que já podes saber o porquê de seres uma fada..."
Entrega-me um papel roxo, com um perfume a rosas... Abro-o ansiosa:
"Aqui encontram-se as razões de teres sido a escolhida:
Dons: Ajudas os mais necessitados; fazes com que os que te rodeiam se sintam bem, mesmo quando estão tristes; tens o dom da palavra; fazes nascer um sorriso em qualquer rosto; o teu olhar meigo e profundo faz com que ninguém te receie e consegues analisar a pessoa mesmo sem ela se aperceber...
Defeitos: Despassarada, teimosa, orgulhosa, nervosa (irritadiça, impaciente), falta de confiança em ti mesma, amuas com facilidade...
Virtudes: Incrivelmente bonita, amiga, boa ouvinte, atenciosa, simpática, uma grande MULHER, dívertida, brincalhona, sempre do lado da razão, meiga, alegre, sensível, altruísta, imaginativa, sincera, correcta e lutadora...
Como vês a conclusão é unânime... És simplesmente ÚNICA... És a nossa Little Fairy... És a fada da alegria, das crianças e dos jovens, da amizade e da justiça..."
Ajoelho-me no chão, as lágrimas rolam pela minha face... Sem reacção possível...
- Eu aceito a missão...
Após ter tomado uma das decisões mais importantes da minha vida, tornar-me numa fada, sinto-me estranha… Se por um lado sinto uma grande pressão pela expectativa que todos têm em mim, por outro sinto-me preparada e encorajada para não virar costas a este novo projecto.
Levanto-me, seco as lágrimas, apanho o cabelo, sorrio ao olhar em meu redor e pergunto:
- Que tenho de fazer?
- Apenas continuares a ter a tua vida de sempre… Decidimos conceder-te uma licença especial, ou seja, vais ser a primeira e única fada com vida humana.
- Se vou continuar a ter a minha vida, como posso desempenhar o papel que me foi entregue?!
- É simples… Ao longo dos teus dias irás perceber qual é na realidade a tua missão. A partir de hoje serás a fada Artemisa.
Após a reunião ter acabado, todas as fadas voltaram às suas respectivas missões, eu transformo-me de novo em humana e dirijo-me para casa…
Quando o rádio tocas às 7h da manhã com um irritante anúncio, só me dá vontade de bater a quem teve a triste ideia de o produzir… Suspiro e levanto-me com um certo esforço, depois de um bom duche arranjo-me, como e preparo-me para sair de casa… Após colocar algumas gotas de perfume, olho o espelho e sorrio: "Isto não é normal, mas a realidade é que me sinto bonita hoje!!!".
Visto umas calças de ganga claras, calço botas de cano alto pretas, visto uma blusa preta de gola alta e uma azul clara por cima… Uso uns brincos pequenos triangulares, azuis escuros e um fio com uma pequena fada… Tudo muito simples e prático, mas é assim que me sinto bem…
Agarro na mala, visto o colete de penas enquanto desço o primeiro andar de escadas digo em voz alta "Até logo". A minha mãe surge ao cimo das escadas e pergunta: "A que horas vens?!…", "Às 11h, até logo…"
Abro a porta, desço mais um andar de escadas, abro a porta da rua, está uma manhã de nevoeiro olho o céu e penso "Ainda vai ficar sol"… O caminho, a pé, até ao liceu ainda é longo, hoje é daqueles dias que nem me apercebo que o percorro, os meus pensamentos e a minha atenção estão bem longe dali, o corpo vai sozinho até ao seu destino… A meio do caminho encontro um amigo e se ele não me chama e não me pede dois beijos, nem lhe tinha ligado…
Durante todo o dia os meus pensamentos andam longe, penso em qual será a minha missão, mas ao contrário dos dias anteriores, sinto-me preparada para o que der e vier…
Encontro-me no meio do campo… Olho o céu, maior esplendor impossível, o sol brilha e dá-nos o seu calor extraordinariamente acolhedor, um céu azul de cortar a respiração…
Olho em meu redor e só vejo malmequeres, malmequeres, malmequeres… Não resisto e deito-me no chão, fecho os olhos e sorrio… Oiço o bater leve de asas junto aos meus ouvidos, abro os olhos e ainda mais tranquila fico ao aperceber-me que as minhas borboletas me protegem… Sinto mais uma vez a transformação a apoderar-se-me do corpo…
Levanto-me, instintivamente começo um bailado suave por cima das árvores… Começo a sobrevoar as árvores, os pequenos animais que descansam à sombra… Faço um voo brincalhão junto a uns chibitos e solto uma leve gargalhada ao aperceber-me dos seus pulinhos traquinas…
Nisto oiço o som de uma pequena gargalhada… Levanto um voo em espiral e quando me encontro protegida pela copa de uma árvore observo uma menina a brincar com o seu cachorrinho.
Sinto um aperto no coração, olho instintivamente para o cão… Apercebo-me da sua intenção e sussurro:
- Black… calma, não faças isso… É apenas uma menina… Uma menina que quer apenas brincar, ela nunca teve intenção de te magoar – enquanto prenuncio estas palavras vou descendo da árvore – não faças isso, ela é tão tua amiga…
Nisto o pequeno animal recua na sua intenção e assusta-se ao ouvir o soluçar da pequena Mariana… Aproximo-me dela, faço-lhe suaves festas no cabelo loiro e bonito enquanto lhe sussurro…
- Minha pequenina, já passou… Ele apenas se assustou… Faz-lhe uma festa que ele perdoa-te… Vá não tenhas medo… Olha… Vês… Faz tu… Ele já não te faz mal…
A menina faz uma festa no pequeno cachorro e ele lambe-lhe a mão e a cara fazendo-lhe cócegas, o que provoca uma pequena gargalhada…
Ao ver que tudo fica bem de novo, beijo a pequena Mariana na cabeça e sussurro-lhe:
- Sorri e sê sempre uma boa menina… Se precisares chama por mim… Chama pela Artemisa...

Caminho sozinha… A única coisa que me rodeia são árvores gigantescas que me prendem nesta vida tão injusta… As lágrimas rolam pela minha face… Tento sustê-las mas torna-se impossível…
Deixo-me cair de joelhos no chão… Abraço-me e grito… "PORQUÊ?! PORQUE É QUE É TUDO TAO INJUSTO?! QUE É QUE EU FIZ PARA ESTAR PRIVADA DE COMUNICAR COM O RESTO DO MUNDO?!"
A dor no meu peito é cada vez mais forte… Cada vez soluço mais… Sinto a falta da pessoa que mais AMO, a distância se já se si dói e não é pouco, estar privada de levar horas e horas a vê-lo e a falar com ele ainda mais insuportável…
POR FAVOR LIBERTEM-ME… Deixem-me ser… SIMPLESMENTE FAIRY
Avanço desprotegida por um bosque escuro, sinto um cheiro nauseabundo que me sufoca... O nevoeiro que me rodeia intensifica-se, começo a andar mais depressa.. Sinto-me angustiada..
Começo a sentir-me perdida, rezo baixo em busca de ajuda e de forças para encontrar a saída... "Mas eu sou uma fada... Por isso, vou conseguir ultrapassar esta barreira!"
Ergo-me, fecho os olhos, dou uma volta sobre mim mesma e decido seguir em frente... Caminho sentindo cada passo como se fosse o último da minha vida... De repente, o nevoeiro dissipa-se e assim que noto ar puro, suspiro profundamente.
Oiço uma pessoa atras de mim, levanto-me sem pensar e preparo-me pra me defender...
- Calma Artemisa, sou eu, a Feather... Vim ver como estavas, pois a Morticia fez mais uma das suas.
- Morticia? - pergunto ainda um pouco atordoada.
- Sim, a Morticia é a minha irmã gémea, mas preferiu o lado negro... A morte, a ficar em segundo lugar.. Tu foste a mais forte das fadas, normalmente temos que intervir... Tu não, tu superaste tudo sózinha, deste mais uma prova de que mereces ser uma fada.
Como forma de me reconfortar e para poder acompanhar a Feather, chamo as minhas três borbuletas
- Éris, Ceres, Métis... Por favor...
Elas transformam-me em fada. Eu e a Feather começamos a sobrevoar as árvores, pouco falamos pois ainda nos encontramos em território inimigo...
Paro de repente... Feather pergunta baixo "Que se passa?"... Peço silêncio.
Vejo um pequeno esquilo a ser maltratado por um duende negro... Desço vertiginosamente... Fico suspensa entre o esquilo e o duende...
- Pára... Este pequeno animal não te pode fazer nada, já reparaste na diferença de tamanho? Na diferença de poderes? Queres que te faça o mesmo a ver se gostas?
Feather observa-me do alto da árvore mais próxima...
- SAI já da minha vista, ai de ti que faças mais algum mal a alguém ou a algum animal... Veremos como te comportas quando te fizer o mesmo...
O duende foge e pede mesiricórdia, estendo a minha mão ao esquilo e coloco-o no meu ombro...
Levanto voo até à Feather, sorrimos uma para a outra e seguimos caminho... No meu pensamento, digo "Hei-de voltar e tudo vai mudar... "
Depois do enorme susto que apanhei devido ao ataque da Morticia, sento-me ao pé da cascata a tentar recuperar…
A Ceres, a Métis e a Éris esvoaçam junto de mim… O esquilinho Tommy brinca com elas e com o seu novo amigo Fred… Sinto-me exausta e ao mesmo tempo triste.
Durante o estado de apatia em que encontrei torci o pé e agora dói-me bastante, coloco-o na água gelada para evitar o inchaço.
Tenho um sentimento quase intransmissível por palavras… Sinto como se me preparassem algo, noto um mistério no ar… Odeio esta sensação de desconfiança, curiosidade e ansiedade… Mas desta vez não vou dar parte fraca, sei que vou ficar a remoer nisto e não é pouco, mas vou resistir à tentação de questionar o que quer que seja.
A Métis resolve brincar com as minhas bochechas e com o meu nariz, solto uma gargalhada ruidosa… Nisto sou atacada pela Sam e pelo Jim… Dois pequenos diabretes que não me largam… Ela adora as minhas borboletas e o meu vestido, já ele anda radiante com o Tommy e com o Fred…
Solto-me deles com alguma dificuldade… mergulho e dou uma gargalhada ao ver os seus beicinhos traquinas por não poderem fazer o mesmo… Coloco-me em bico de pés… Dou às asas… Levanto voo… E faço um pequeno bailado no ar… Deliciando-os…
