Abro a janela de par em par… aguardo as pequenas borboletas com um sorriso no rosto e um brilhozinho nos olhos muito particular.
Ceres poisa no meu dedo… Éris na minha cabeça… Métis, a mais ousada, poisa no meu nariz, acabando por me fazer cócegas.
A quarta borboleta entra disparada no meu quarto, esvoaça por todo o lado, como se procurasse alguma coisa… Eu e a minha irmã desatamos a rir, pois ela acaba de parar mesmo em frente à minha Web Cam, ou seja, a pessoa que se encontra do outro lado apenas consegue visualizar manchas azuis e pretas… um azul lindo muito... muito indefinido… tem um tom particular… mesmo memorável.
Ceres pede-me que aguarde um pouco… olho lá para fora distraidamente, aproveitando os últimos raios de sol que se fazem sentir, neste dia maravilhoso! Nisto, avisto um pássaro extraordinariamente belo… de tão belo que é, a sua descrição é quase impossível, penso que até para a mente mais fértil será difícil faze-lo… No bico traz um pedaço de cortiça, onde posso ler um recado da Feather:
“Querida Arti… aguardamos ansiosamente o teu regresso… Enviamos-te o Hélios para que possas andar 100% protegida e possas descansar ao máximo… Sentimos bastante a tua falta, o Reino sem ti, sem o teu brilho genuíno e peculiar, não é o mesmo… falta aqui o teu sorriso, o teu olhar!”
Sento-me na cama, uma lágrima desliza suavemente pelo meu rosto, foco um ponto distante para lá da cidade… passados alguns segundos de reflexão, olho para a Ceres e digo-lhe:
- Ceres, podes dizer que lá estarei este fim-de-semana… para matar saudades, mas pede segredo absoluto, quero que apenas o Josh e a Feather saibam da minha decisão está? Assegura-te que mais ninguém sabe de que vou voltar, pelo menos para matar saudades ok?
A semana passa tranquilamente… a ansiedade e as saudades aumentam a cada minuto que passa… Hélios acompanha-me para todo o lado, tornamo-nos praticamente inseparáveis, somos super amigos, é com ele que posso desabafar sobre tudo, uma vez que ele, próprio, também conhece as duas faces da moeda, tal como eu!
Finalmente chega sexta-feira, depois do trabalho eu, Hélios e Killiane partimos sorridentes… sentimos como que uma alma nova a nascer dentro de nós… Assim que chegamos à entrada da floresta olho em meu redor, está um pôr do sol lindíssimo, daqueles memoráveis que nos fazem suster a respiração… olho para Hélios e sorrio, faço uma espécie de circunferência em nosso redor, aí toco em várias plantas… do nada surgem várias fadas, minúsculas fadinhas que nos rodeam… Olho para o céu e começa a chover… ao mesmo tempo a transformação inicia-se…
Sinto-me L I B E R T A…

Eu, Hélios e Killiane voltamos a ser o que mais desejamos… deixámos de lado o que nos liga ao mundo humano e reencarnamos no mundo das fadas. Um mundo que se torna inatingível para a maioria dos humanos… um sonho… um paraíso que eles tentam alcançar.
A noite cai tranquilamente, como ainda nos encontramos longe do reino, decidimos pernoitar numa espécie de hospedaria. Tudo em redor daquela esplendorosa árvore se encontra organizado ao pormenor.
Assim que nos aproximamos da árvore principal, um duende chega junto de nós e oferece-se para levar a Killiane até aos estábulos.
Entramos num pequeno alpendre formado por trepadeiras, de onde pendem pequenas flores roxas que lhe conferem um aspecto delicado.
Ao atravessarmos o pequeno hall de entrada deparamo-nos com um salão imenso. Ao centro observamos uma espécie de elevador: um lago com pequenos Gansos, cinzentos, lindos… olhando um pouco mais para cima conseguimos perceber, que são eles que efectuam o transporte das fadas até aos andares superiores.
Eu e Hélios trocamos um olhar e um sorriso deliciado e encantado.
Olhamos para o lado direito, avistamos um balcão feito de pinheiro… aproximamo-nos… a pequena duende, ao ver-nos, sorri e estende-nos os formulários que começamos a preencher: estes são pequenas lascas de eucalipto e escrevemos com penas de pica-pau vermelhas com a ponta verde.
Assim que entregamos os formulários, a duende entrega-nos as chaves dos quartos, estas são caruma de pinheiro e cada andar possui uma cor diferente.
Dirigimo-nos ao lago, sentamo-nos num ganso… Ele eleva-se no ar. A sensação de liberdade é incrível e reconfortante.
Encontramos uma pequena divisão à entrada, onde se encontram dois cadeirões com um aspecto confortável e um jarrão com flores secas.
Fico surpreendida ao entrar no meu quarto: a janela possui um cortinado muito simples, em tons creme com pequenas flores rosa; a cama é enorme, tem um dossel em seu redor, o que lhe confere um aspecto real. A casa de banho é toda branca com pequenos ornamentos florais. Embora tudo apresente um aspecto muito requintado, torna-se bastante acolhedor e familiar.
Hélios bate à porta e pergunta se quero ir comer para depois podermos descansar. Descemos até ao andar de baixo, entramos no bar/restaurante. Este não se fica atrás no que diz respeito à decoração: as paredes estão pintadas de azul-bebé, os roda pés e faixas de amarelo suave. No centro está uma carroça, em seu redor dispõem-se pequenas mesas (margaridas azuis que se encontram sob um feitiço que lhes confere um aspecto gigante e inquebrável) com bancos (tulipas amarelas, também elas enfeitiçadas) bastante confortáveis.
Após uma refeição deliciosa, voltamos aos nossos quartos onde passamos uma noite tranquila… uma vez que o dia seguinte se avizinha longo e emotivo.

Amanhece! O sol radioso que se faz sentir lá fora convida a uma longa caminhada, ainda bem que o percurso até ao reino ainda é longo, assim dá para aproveitar o dia lindo que se faz sentir.
Mal acordo, dou um pulo da cama e dirijo-me até à janela… abro-a de par em par, o sol espreita timidamente por de trás de uns galhos da árvore mais próxima. Está uma brisa suave que transporta consigo um doce cheiro a flores.
Quando saio fico surpreendida ao ver Hélios prontinho à minha espera, refastelado num dos cadeirões. Olho para ele e, é claro, não resisto a soltar uma gargalhada: ele está a dormir de novo. Toco-lhe suavemente no rosto e ele desperta.
Como a fome já aperta, dirigimo-nos ao bar/restaurante. Ao entrarmos, sinto vários olhares postos sobre mim, coisa que me incomoda bastante, sentamo-nos num cantinho acolhedor, para evitar alguns comentários.
Após uma refeição divinal, daquelas mesmo inesquecíveis, partimos deixando aquela magnifica hospedaria para trás. Avançamos tranquilamente por meio do pinhal: ouve-se o chilrear dos pássaros, a água a correr em pequenos riachos e nascentes, o estalar da caruma e folhas por baixo dos nossos pés.
Vamos conversando distraidamente, vamos absorvendo tudo ao pormenor. Cada imagem fica gravada na nossa mente. Não são só as imagens, são também os cheiros, o sons… Tudo fica memorizado, tudo fica guardado nos sentidos e no coração.
Sinto a Killiane um pouco inquieta e isso preocupa-me, não sei até que ponto não andará a Yazmina por estes lados.
De repente ela assusta-se, assustando-nos a nós também… mas ao olhar em meu redor percebo que o único motivo que levou a todo este alvoroço não foi mais do que um pobre coelho que se assustou aos nossos passos.
Como ele se encontra bastante assustado, aproximo-me dele, deixando Hélios a cuidar da Killiane. Devagarinho vou-lhe estendendo a mão, ele começa-me a cheirar e a comer um pouco de cenoura que lhe estendo, aos poucos ele acalma-se e depois parte mais tranquilo.
Prosseguimos viagem… a pouco e pouco começamos a sentir um cheiro familiar: o cheiro a pinheiros e a chagas acentua-se; a frescura proveniente das ribeiras, que abundam no reino, faz-se sentir, assim como o cheiro a humidade e a terra molhada; as plantas exóticas misturadas com plantas mais comuns conferem-lhe um cheiro único e muito peculiar, inatingível em qualquer outra parte do mundo, é tudo muito adocicado, tudo muito próprio…
Chegamos à fronteira do reino, a ansiedade e o nervosismo aumenta… Olho para Hélios, ele olha para mim… montamos a Killiane e entramos no reino.
Entramos calmamente no reino, um sorriso radioso invade-nos o rosto e os nossos olhos absorvem tudo ainda com mais intensidade. Chegamos à zona da cascata, o meu desejo é mergulhar nela, mas a vontade de rever Aléxis, Feather, a pequena Sam e Jim é muito superior à de mergulhar naquelas águas tranquilizantes.
Acelero o galopar de Killiane, passamos um pequeno aldeamento e ninguém nos vê. A entrada do aldeamento principal distingue-se pela junção, repentina, das árvores, formando um caminho estreito e amparado. Abrandamos o passo, entramos suave e silenciosamente no pátio principal. Algumas fadas andam de um lado para o outro, nos seus afazeres.
Avisto um grupo de pequenas fadinhas a brincar perto da árvore principal. Observo deliciada a pequena Sam, é igualzinha a Feather, já o Jim, tem os traços do pai e um espírito super tranquilo.
Sam ergue o rosto, olha-me nos olhos, dá um grito e sorri de felicidade, enquanto corre para nós de braços aberto:
- ARTI… a Arti voltou… VENHAM… mãe, pai… TIOOOOOOOOO… a ARTI… a ARTI voltou!
Assim que desmonto o unicórnio, apanho-a meio no ar e abraço-a no meu colo; Jim agarra-se a uma perna minha. Eles não param de me dar beijos e fazer festas no rosto e no cabelo.
Da entrada da árvore principal surgem: Feather, Josh, Aléxis, Cibele e Kirios. Todos apressam o passo ao meu encontro. Coloco a Sam no chão e com ela bem agarrada à minha mão.
Olho Aléxis bem na profundeza do seu ser, faço uma festa no rosto de Sam e Jim e afasto-me suavemente deles. Aléxis segura-me delicadamente a mão, puxa-me para ele, abraça-me com força como se fosse a ultima vez que me visse… faz-me festas no rosto, por fim, beija-me apaixonadamente.
Abraço todos para matar saudades, involuntariamente, as lágrimas rolam pelo meu rosto.
As crianças brincam em meu redor. Aléxis abraça-me por trás observando cada gesto e cada palavra minha. Converso, animadamente, com Kirios e Cibele: conto-lhe todas as novidades do mundo humano e eles dizem-me que ali tudo continua, praticamente, na mesma desde que parti.
Olho a Feather nos olhos e o meu sorriso dissipa-se, Aléxis faz-me uma festa no rosto, suspiro:
- Feather?! Onde está o Nataniel?!
Todos se calam repentinamente, baixam os olhares, as suas expressões mudam drasticamente: os rostos felizes com que me receberam dissipam-se.
- Que se passa? – pergunto cada vez mais angustiada – Contem-me o que se passa!!
- Arti, querida, vamos até casa, lá conversamos melhor.
Deslocamo-nos até à árvore principal, as crianças ficam na rua a brincar. Entramos e dirigimo-nos à minha sala favorita, a decoração é tão simples que me fascina: paira no ar um perfume, delicioso, a rosas. A sala encontra-se decorada a verde e castanho. As paredes são cremes; os sofás fetos, com um aspecto uniforme e muito confortáveis. As mesas são cogumelos brancos, enormes, que dispostos lado a lado formam mesas uniformes e engraçadas; as chávenas e as tigelas são pinhas cortadas ao meio; os pratos que utilizamos, são folhas de nenúfar e os copos são jarros amarelos e brancos. Aprecio tudo isto deliciada.
Sentamo-nos confortavelmente, enrosco-me em Aléxis e depois de tudo mais sossegado, Feather fala-me com uma certa tristeza na voz:
- Arti, quanto à tua pergunta de há pouco, as noticias que temos para ti não são nada boas. – Aléxis abraça-me – Depois de teres abalado, o Nataniel piorava a cada dia que passava. As feridas provocadas pelos raios de luz, vindos da Morticia, eram muito profundas. Nada conseguimos fazer para o salvar. Infelizmente acabou por falecer.
Começo a chorar baixinho. Todos eles se aproximam de mim e me abraçam.
- Arti, eu tenho uma coisa para ti, que ele me deixou antes de morrer. – Diz-me Kirios, enquanto sai da sala.
Seco as lágrimas, olho para todos e suspiro. Kirios traz consigo uma pequena caixa rectangular de madeira. Entrega-ma.
Ergo os olhos da caixa e fixo Aléxis, beijo-lhe suavemente os lábios e sussurro-lhe:
- Volto já está?
Ele olha-me com ternura e compreensão, saio da sala e dirijo-me até ao meu quarto. Tudo se mantém na mesma, com uma simplicidade e bom gosto extremos. O quarto encontra-se todo decorado em tons de amarelo e creme: a cama é grande e de dossel, a colcha possui pequenos malmequeres amarelos; as paredes são cremes, com adornos em amarelo suave. A um dos cantos do quarto vejo os meus cadeirões preferidos: dois malmequeres gigantes, super confortáveis. Aproximo-me do roupeiro e retiro um vestido: é branco de decote de barco, para o completar visto uma túnica bordeux que me assenta lindamente… sinto-me leve e confortável.
Chego à sala e todos me olham na expectativa de perceber se já abri a caixa, sorrio com alguma tristeza estampada no rosto, sorriso e olhar.
- Não, ainda não abri. Vou até à cascata. Aléxis, vens comigo até à Killiane?
Ele levanta-se e acompanha-me, faço uma festa na minha Unicórnio e olho Aléxis na profundeza do seu olhar.
- Daqui a pouco vais ter comigo?
- Se assim o desejares, já lá apareço.
Sorrio com um brilhozinho nos olhos, Aléxis ajuda-me a subir para a Killiane. Parto tranquila. Assim que chego à cascata deixo a Killiane à vontade e sento-me no chão.
Abro a caixa…
Lá dentro encontro uma carta, duas rosas (uma vermelha e uma branca) e uma espécie de flauta.
Respiro fundo e começo a ler tranquilamente:
Querida Arti,
Quando leres esta carta, o mais certo é eu já não estar entre vós… Sangro em abundância e sinto-me a perder as forças a cada minuto que passa. As dores são tão insuportáveis que mal consigo escrever. O meu fim está próximo e não queria partir sem antes te dizer que ganhaste um lugar muito especial no meu coração, que te adoro como pessoa que és e o que mais desejo é que sejas muito feliz. Compreendo perfeitamente porque foste escolhida para receber os poderes de fada, não és uma humana comum, as tuas virtudes são infindáveis, tornando-te em alguém muito especial. Aceita a rosas que te envio, juntamente com a minha ocarina, o maior tesouro da minha família, cujo o último herdeiro sou eu… Trata bem dela, tenho a certeza que fica bem entregue. Despeço-me agora de ti com um adeus e até sempre…
Nataniel
As lágrimas rolam suavemente pelo meu rosto.
