Deitada na cama penso em Aléxis, em tudo o que fomos e em tudo o que nos transformámos. Recordo tudo o que passei neste ano ao seu lado: a angustia, o desespero, as lágrimas, os sorrisos, as cumplicidades, as trocas de olhar, os pensamentos, os silêncios, as palavras doces.
Não me sinto triste por estar longe dele, já senti mais vontade de chorar, neste momento sinto uma tranquilidade muito forte, que me preenche a alma e me faz inchar o coração.
Sinto-me orgulhosa de todas as pequenas batalhas que tenho ultrapassado sozinha, mas com ele sempre dentro de mim.
Decido fazer uma coisa que há muito não faço. Tomo duche, apanho o cabelo e coloco um boné. Saio de casa, respiro fundo e sorrio ao sentir o calor do sol a acariciar-me o rosto.
Subo a serra e entro numa pequena clareira, sento-me tranquilamente e colho alguns malmequeres. Quando olho para o meu lado esquerdo, surge uma maravilhosa coroa de girassóis e um pequeno pergaminho atado a ela:
O coração acelera e os meus olhos percorrem o resto da folha a uma velocidade vertiginosa:
“Acredita em ti, tal como tens acreditado sempre. Acredita na tua força interior, pois voltarás a ser recompensada. Acredita e Sorri, porque um sorriso como o teu derrota tudo e todos os que te queiram ver no fundo do poço. A tua força interior é superior a qualquer coisa. Acredita e Sorri!”
Coloco a coroa de girassóis na cabeça e volto a sorrir.

Regresso a casa, sento-me no baloiço da árvore grande e fico envolta nos meus pensamentos e sentimentos.
Deixo-me envolver pelo ritmo do baloiço e quando dou por mim já não consigo parar de baloiçar, cada vez mais o ritmo aumenta, sinto o meu espírito a desanuviar, fecho os olhos.
É então que surgem diante de mim vários dragões, sinto algo a envolver-me e a transportar-me com eles. Suspensa no ar visualizo terrenos devastados pelo poder do mal, uma revolta interior começa a surgir e a raiva fala mais forte.
Incito o meu dragão a sobrevoar tudo o mais próximo possível, é então que sinto o seu cheiro, o cheiro da morte, do terror que a Morticia costumava usar para aliciar as suas vítimas a passarem para o reino do mal.
De repente regresso ao baloiço, zonza de tudo o que me aconteceu, salto dele e desato a correr para casa, em busca da pulseira e tento entrar em contacto com Aléxis. Ele dá sinal de vida e a única coisa que pronuncio é:
- Preciso ver-te, preciso falar contigo com urgência. Encontra-me no parque dentro de meia-hora.

Passada meia hora encontramo-nos sentados num dos bancos do jardim. Sinto-me exausta e as lágrimas rolam desenfreadamente pelo meu rosto. Não aguento mais a minha forma humana e digo a Aléxis que caso prefira ficar pelo mundo humano que eu parto nessa mesma noite.
Olho-o atentamente, procurando perceber qual a sua intenção mas nada consigo descortinar. Suspiro e levanto-me em silêncio, quando me preparo para partir sinto a mão de Aléxis a prender na minha e o seu sorriso a surgir:
- Claro que te acompanho. Passo por tua casa ao anoitecer. – Dá-me um suave beijo nos lábios e partimos em direcções opostas.
O sol põe-se e nesse preciso momento a campainha toca. Desço as escadas à pressa e partimos. Embrenhamo-nos na serra, encontramos uma clareira e é aí, sob o olhar atento da lua e das estrelas, que mais uma vez atravessamos a barreira, desta vez bem abraçados e aconchegados no corpo um do outro.
Ao entrarmos no mundo das fadas um pirilampo surge, é Pirro, que nos espera. Ficamos surpreendidos e ao mesmo tempo surpreendidos pela sua presença. Afinal as coisas estão mesmo graves por este lado.

Para nossa segurança decidimos que os unicórnios se manteriam onde estavam, atados a dois pinheiros. Mesmo que alguém desse por eles e os idenficasse nunca poderiam ter a certeza se já tínhamos regressado ou não.
Ao sobrevoar a área limítrofe do reino começo a sentir aquele cheiro a podridão, a maldade, a morte, a guerra… Cheira-me a queimado, a destruição, a infelicidade.
A raiva aumenta, voo mais rápido que Aléxis e quando ele me apanha paro suspensa no ar. Olho-o e Pirro poisa no meu ombro. Mando-os silenciar. Desvio delicadamente uma folha de árvore e eis, então, que surge diante de nós o exército de Yazmina.
Sobrevoamos a área com a maior cautela, precisamos contactar com alguém do Reino Glorious. Olho para baixo atentamente e vejo Cibele, Kirios e Hélios, os três subtilmente escondidos.
Desço delicadamente e sussurro:
- Cibele, Kirios, Hélios… por favor não se assustem e façam o menor movimento possível.
Um a um viram-se lentamente e abrem um enorme sorriso ao ver-nos, aproximam-se de nós e trocamos informações.
Grande parte do reino esta destruído e dominado pelo exército da Yazmina, faltando apenas a aldeia principal, que é onde se concentra grande parte do exército de Glorious.
Sentimos movimentações e automaticamente levantamos voo, em silêncio e escondidos por entre os galhos dos pinheiros e algumas árvores aguardamos.
É então que vejo Yazmina a ser escoltada, não resisto e atiro-lhe uma pinha, acertando-lhe em cheio nas mãos que ficam a sangrar. Um grito dilacerante de dor faz-se ouvir pela clareira.
Descemos dos nossos esconderijos, formamos um cordão e ao surgir diante dela faço o meu melhor sorriso e falo com voz triunfante:
- Regressei e desta vez nada me vai deter. Vais acabar por morrer.
Num abrir e fechar de olhos desaparecemos, sem dar tempo a qualquer reacção que seja por parte do exército de Imaculous. Yazmina grita de dor e de desespero.
