Depois de dormirmos durante dois dias acordo com um raio solar a acariciar-me o rosto. Abro ao de leve os olhos e sinto os braços de Aléxis em redor do meu corpo, sorrio e volto-me para ele.
Com um brilho renovado nos olhos, uma paz que já não sentia há muito tempo, uma força e uma vitalidade que julgava perdida, acaricio o rosto do rapaz que quero ao meu lado e beijo-lhe o rosto para que ele acorde.
Depois de estarmos envoltos nos braços um do outro levanto-me, elevo-me do solo e mergulho no pequeno lago da cascata. Deixo-me absorver pela frescura, pela limpidez e pela pureza da água em que me encontro submersa.
Ao sair da água deparo-me com Aléxis a conversar animadamente com a Pétala, a Feather e os meus pais. Todos sorriem enquanto rodopio no ar e me junto a eles. Roubo um pequeno morango das mãos de Aléxis e digo:
- Já sei como fazer frente à Yazmina.
Todos me olham espantados mas riem-se ao constatar que voltei a ser o que era antes da maldição me absorver o espírito.
- Qual é a tua ideia? – pergunta-me Aléxis interessado.
- Ela e o seu exército ainda se encontram a cercar o reino, não é? – confirmam com um leve gesto de cabeça – Não vão aguentar durante muito mais tempo sem comer e sem beber. A água que possuem é pouca e por aqui perto a mais próxima é a da cascata.
- Onde queres chegar? – pergunta-me Gwynn, meu pai
- Se estas pétalas nos curaram, podem ter o sentido inverso num exército cujo principal objectivo é espalhar o mal, o terror e destruir tudo o que de belo os nossos reinos têm conseguido implementar no mundo.
- Sim Arti, tens razão. Quando entrei em contacto com os duendes o Dunaz fez-me referência a isso, mas eu não dei grande importância. – confirma Pétala.
Sorrio para todos e tenho a certeza de que o nosso objectivo será alcançado.

Em conjunto com Pétala e Aléxis, reunimos um pequeno grupo de fados do nosso exército com um objectivo muito concreto.
- Precisamos abrir um pequeno caminho, para que alguma água da cascata corra até ao acampamento da Yazmina. Um caminho largo e que comporte uma boa porção de água. – Vou dando instruções sucintas e cautelosas para que nada falhe no nosso plano – Mas atenção, ninguém pode ser visto. Precisamos desenvolver este projecto no mais absoluto segredo, inclusive mais ninguém pode saber qual nossa finalidade a não ser nos sete. Entendido?
Todos concordam e os cinco homens iniciam o seu trabalho, enquanto Pétala e eu, nos juntamos em redor de variados tipos de flores.
Formamos um pequeno círculo no chão com folhas de eucalipto e caruma de pinheiro. No seu interior escavamos um buraco. Pétala olha-me intrigada e pergunta:
- Porquê este buraco?
- Não queremos contaminar toda a água da cascata, certo? Apenas uma porção que vá passando pelo preparado e se dirija ao acampamento deles. Assim, o pequeno leito irá da cascata até ao círculo.
- Sim - diz Pétala.
- No buraco do interior fazemos o preparado que ira “contaminar” a água deles - continuo.
- Do círculo segue novo caminho até ao acampamento? – Pergunta Pétala.
- Sim. Com eles mais enfraquecidos devido a falta de comida e a água “envenenada” torna-se mais fácil acabar com eles.
No pequeno buraco colocamos vários molhinhos de Angélicas, Clematites, Cravos, Crisântemos, Malvas e Madressilvas. Pétala entrega-me um jarro enfeitiçado e eu vou buscar água pura, para deitar sobre as flores.
Enquanto a água vai caindo lentamente sobre elas, eu e Pétala murmuramos em uníssono:
“ Espírito de Sabedoria: tu que sobes às nuvens e que caminhas nas asas dos ventos; tu que expiras e os espaços sem fim são povoados; tu que aspiras e tudo o que de ti vem a ti volta. Sê eternamente bem dito.
Deixa penetrar até esta pequena porção o raio da tua inteligência e o calor do teu amor. Para que os nossos reinos jamais voltem a ser arrastados pela tempestade.”
Ao pronunciarmos a última palavra, a água da cascata começa a correr lentamente pelo caminho e leva até ao acampamento da Yazmina o que nos resta de esperança.
