Segunda-feira, 31 de Maio, 2004

Anonimato Popular

Largos quilómetros percorridos, horas de sono perdido, sustos de cortar a respiração, tudo em prol da tradição.

Uma das melhores maneiras que o povo possui para fazer passar, de geração em geração, os seus costumes e a sua cultura, é através da dança e do folclore.
Embora Portugal seja um país pequeno é bastante rico em climas e culturas variados. Cada região apresenta um estilo muito próprio quer nas danças, quer nas músicas e, até mesmo, nas formas de trajar. Estas são pensadas e criadas em função das condições do clima, das matérias-primas disponíveis e das funções desempenhadas por cada região. Das capas negras de Aguiar da Beira; às saias, rodadas, compridas do Algarve; passando pelo traje minhoto cheio de cor, beleza e riqueza; não esquecendo as sete saias da Nazaré ou o capote tipicamente alentejano, todos traduzem as tradições e costumes de cada região.

Cada ritmo esconde uma lenda ou um mito, marcados quer pelo orgulho em ser português e pela adesão de, cada vez mais, crianças a este tipo de danças. São os grupos folclóricos que, através de gerações e gerações, vão servindo de mensageiros por todo o país, mas também pelo estrangeiro, da cultura regional.

Os grupos folclóricos tornam-se referências como escolas, onde muitos de nós encontram exemplos de vida, cimentam e divulgam as raízes tradicionais das suas regiões, quem é que não gosta de relembrar muitos dos acontecimentos do passado?

Mas o folclore não é feito, apenas, de música e danças, a grande base de um bom folclore é a poesia popular que está por detrás. Revela-se injusta, a tendência para considerar a poesia popular como uma produção com menor valor que a dos autores com preparação académica. É por este enorme preconceito ainda se encontrar generalizado na nossa sociedade, que os compositores populares são diluídos pelo anonimato individual.

Agora pensemos em nós: nós que nos expressamos atrás de ecrãs de computador, nós que publicamos os nossos pensamentos e opiniões numa página da Internet, nós que tão depressa podemos estar no auge da consideração por parte da comunidade blogger, como podemos cair no esquecimento. Nós também vamos ser diluídos pelo anonimato individual?

Olhar Profundo :: Maio 31, 2004 03:15 PM | Categoria: Olhar Profundo
Comentários

Na minha opinião acho que isso é bem provável...
Quanto à questão de sermos reconhecidos na comunidade blogger isso é irrelevante, a meu ver, porque se a comunidade em si for diluída pelo anonimato individual, então passaremos a fazer parte de um submundo da cultura

Dark-Templar :: Maio 31, 2004 04:45 PM

O primeiro comentário levantou uma questão na qual eu já tinha pensado. não é por eu escrever sobre o nosso reconhecimento na comunindade blogger que pense, ou que sinta que para mim seja importante ser reconhecido ou nao. o que eu quiz demonstrar foi que nós somos a voz dos jovens neste momento e que podemos ser reconhecidos agora mas que, alguns de nós, nao são levados tão em conta qt mereciam. apenas isso *

Olhar profundo :: Maio 31, 2004 05:01 PM

Ena ena... sou eu, o desaparecido em combate. Tema interessante aqui debatido; hoje vinha a subir as escadas do meu prédio quando me comecei a questionar se dentro de uns anos encontraria alguém a quem diria... eu tinha um blogue, caneta sem tinta, lembras-te? Neste momento prefiro pensar que isto me acompanhará nos meus próximos anos, como marca do que fui na adoolescência, da comunidade a que pertenci. Desvanecer-se-ão as palavras no tempo? Espero bem que não!

Krip :: Junho 1, 2004 10:04 PM

Folcklore, como a própria palavra indica é a cultura do povo. No caso da música a questão é bem interessante. Os tais compositores populares não só correm o risco de cair no esquecimento como é quase garantido que isso acontecerá, mas não acredito que isso seja motivo de preocupação, porque o folcklore é mesmo assim, é para se viver no momento, sem protagonismos, e ser passado de geração em geração. O compositor popular quer fazer aquilo que lhe agrada com o conhecimento que tem, que normalmente é pouco. Tal como a poesia popular, normalmente escrita em quadra e de rima cruzada... não terá tanto valor e aceitação como a poesia de estudiosos e doutores... mas que importa? Quem a escreveu e o grupo que a ouve desfruta-a naquele momento, muitas vezes se diverte! :)
Mas há uma coisa que é certamente preocupante, é que esta cultura ou subcultura é esquecida não pelos doutores poetas ou pelos compositores eruditos, pelo contrário, estes valorizam-na muito (ja passo a detalhes), é esquecida e posta de parte pelo cidadão comum que não tem tempo para se cultivar ou que acha que arte é só Dali, Stravinsky ou Pessoa... Mas a verdade, é que no século XX, o século das grandes (e imensas) correntes artísticas, houve uma procura muito grande pelo folcklore, falo concretamente da música porque é a area que conheço, uma das correntes bastante marcadas foi, e é, o nacionalismo, que se baseia numa busca profunda nas raízes de cada país e em basear nisso a obra de arte. Penso que quase todos os compositores já tiveram essa curiosidade e essa influência, este "estilo" veio enriquecer muito a música do sec XX. A mesma coisa acontece com a música portuguesa, há compositores interessados em ir buscar ás nossas raizes a base para as suas composições, já ouvi algumas coisas, mas sinceramente agora não me lembro de nenhum. Internacionais lembro-me de alguns, que são mais faceis também de encontrar na net para ouvir, deixo aqui algumas sugestões, espero que oiçam e gostem e claro, vejam o que se pode fazer com o folcklore: (Os ilustres Nacionalistas) George Gershwin (USA); Dmitri Schostakovich (Rússia); Sergei Prokofiev (Rússia); Benjamin Britten (Inglaterra); Aaron Copland (USA); Béla Bartók (Húngria); Carl Orff (oiçam a Carmina Burana completa, leva-vos a viajar pelas mais diversas partes do mundo); Gustav Holst (influencias do folcklore ingles e do misticismo hindu) e como não podia deixar de ser, o grande Heitor Villa Lobos (Brasil) oiçam as obras para guitarra e digam se não é o puro folcklore brasileiro. Peço desculpa por não haver nenhum português na lista, mas é sempre mais dificil encontrar como já disse anteriormente sei de alguns que o fizeram, mas não me lembro dos nomes. Mas é uma das coisas que tenciono fazer, explorar o nosso folcklore e aplica-lo na composição! :)

(Sorry o testamento)

Sir :: Junho 2, 2004 11:17 AM
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