Fairytale Dream Weblog

Domingo, 26 de Março, 2006

› Veneno

Em conjunto com Pétala e Aléxis, reunimos um pequeno grupo de fados do nosso exército com um objectivo muito concreto.

- Precisamos abrir um pequeno caminho, para que alguma água da cascata corra até ao acampamento da Yazmina. Um caminho largo e que comporte uma boa porção de água. – Vou dando instruções sucintas e cautelosas para que nada falhe no nosso plano – Mas atenção, ninguém pode ser visto. Precisamos desenvolver este projecto no mais absoluto segredo, inclusive mais ninguém pode saber qual nossa finalidade a não ser nos sete. Entendido?

Todos concordam e os cinco homens iniciam o seu trabalho, enquanto Pétala e eu, nos juntamos em redor de variados tipos de flores.

Formamos um pequeno círculo no chão com folhas de eucalipto e caruma de pinheiro. No seu interior escavamos um buraco. Pétala olha-me intrigada e pergunta:
- Porquê este buraco?

- Não queremos contaminar toda a água da cascata, certo? Apenas uma porção que vá passando pelo preparado e se dirija ao acampamento deles. Assim, o pequeno leito irá da cascata até ao círculo.
- Sim - diz Pétala.
- No buraco do interior fazemos o preparado que ira “contaminar” a água deles - continuo.

- Do círculo segue novo caminho até ao acampamento? – Pergunta Pétala.

- Sim. Com eles mais enfraquecidos devido a falta de comida e a água “envenenada” torna-se mais fácil acabar com eles.

No pequeno buraco colocamos vários molhinhos de Angélicas, Clematites, Cravos, Crisântemos, Malvas e Madressilvas. Pétala entrega-me um jarro enfeitiçado e eu vou buscar água pura, para deitar sobre as flores.

Enquanto a água vai caindo lentamente sobre elas, eu e Pétala murmuramos em uníssono:
“ Espírito de Sabedoria: tu que sobes às nuvens e que caminhas nas asas dos ventos; tu que expiras e os espaços sem fim são povoados; tu que aspiras e tudo o que de ti vem a ti volta. Sê eternamente bem dito.
Deixa penetrar até esta pequena porção o raio da tua inteligência e o calor do teu amor. Para que os nossos reinos jamais voltem a ser arrastados pela tempestade.”

Ao pronunciarmos a última palavra, a água da cascata começa a correr lentamente pelo caminho e leva até ao acampamento da Yazmina o que nos resta de esperança.

Quarta-feira, 01 de Março, 2006

› Começar de novo

Depois de dormirmos durante dois dias acordo com um raio solar a acariciar-me o rosto. Abro ao de leve os olhos e sinto os braços de Aléxis em redor do meu corpo, sorrio e volto-me para ele.

Com um brilho renovado nos olhos, uma paz que já não sentia há muito tempo, uma força e uma vitalidade que julgava perdida, acaricio o rosto do rapaz que quero ao meu lado e beijo-lhe o rosto para que ele acorde.

Depois de estarmos envoltos nos braços um do outro levanto-me, elevo-me do solo e mergulho no pequeno lago da cascata. Deixo-me absorver pela frescura, pela limpidez e pela pureza da água em que me encontro submersa.

Ao sair da água deparo-me com Aléxis a conversar animadamente com a Pétala, a Feather e os meus pais. Todos sorriem enquanto rodopio no ar e me junto a eles. Roubo um pequeno morango das mãos de Aléxis e digo:
- Já sei como fazer frente à Yazmina.

Todos me olham espantados mas riem-se ao constatar que voltei a ser o que era antes da maldição me absorver o espírito.
- Qual é a tua ideia? – pergunta-me Aléxis interessado.
- Ela e o seu exército ainda se encontram a cercar o reino, não é? – confirmam com um leve gesto de cabeça – Não vão aguentar durante muito mais tempo sem comer e sem beber. A água que possuem é pouca e por aqui perto a mais próxima é a da cascata.

- Onde queres chegar? – pergunta-me Gwynn, meu pai
- Se estas pétalas nos curaram, podem ter o sentido inverso num exército cujo principal objectivo é espalhar o mal, o terror e destruir tudo o que de belo os nossos reinos têm conseguido implementar no mundo.
- Sim Arti, tens razão. Quando entrei em contacto com os duendes o Dunaz fez-me referência a isso, mas eu não dei grande importância. – confirma Pétala.

Sorrio para todos e tenho a certeza de que o nosso objectivo será alcançado.

Quinta-feira, 15 de Setembro, 2005

› Efflorescence

Enquanto como alguns morangos e mel a pequena Pétala vai colocando variadas flores em cima de uma delicada toalha de algodão, branco, adornada de fios de teia de aranha.
- Que flores são essas? – Pergunto admirada.
- São Angélicas, Clematites, Cravos, Crisântemos, Malvas, Madressilvas e Rosas. Cada uma tem um significado especial e as suas cores também ajudam em termos curativos.

- E isso pode ajudar-me a curar a maldição de que fui vitima? Pode ajudar-me a pensar com mais clareza de forma a conseguir superar a terrível Yazmina?
- Sim claro. Eu estudei com os sábios duendes do sub-reino do Jasmim e antes de me dirigir até aqui entrei em contacto com eles e com a sua ajuda procurei escolher os melhores métodos curativos para vos ajudar.

Sorrio e coloco-me de pé, chamo Samantha e Jim e peço que eles voltem até à aldeia escoltados pelas minhas borboletas protectoras.
Volto a sentar-me e com o meu ar mais sério e compenetrado peço para que todo o ritual comece.

- Podemos começar pelas cores aqui representadas. – Começa Pétala – Decidimo-nos pela cor branca, por simbolizar a paz, e é isso que o Reino Glorious pretende neste momento, simboliza ainda a pureza, a perfeição e o absoluto, tudo características que ambos possuíam. Já a cor rosa representa a emoção, a sedução, o sentimento e o amor ao próximo, simboliza, ainda, o crescimento interior e a harmonia.
- E cada flor? – Pergunto curiosa.

- Vou dar-vos três pétalas de cada uma das flores, vão come-las acompanhadas de mel e água pura da cascata. Enquanto isso eu vou explicando o seu significado.
As Angélicas – continua estendendo-nos as respectivas pétalas – são da família das cenouras selvagens, as suas fadas são tão belas como a própria flor e esta ajuda a fortalecer a aura, a atrair a boa sorte e bastante energia, valoriza a alegria de viver e estimula a intuição.

As Clematites simbolizam e fortalecem a beleza espiritual.
Os Cravos ajudam a harmonizar os desequilíbrios em qualquer parte do corpo.
Os Crisântemos estimulam a vitalidade e intensificam a energia de cada um.
As Malvas simbolizam a ambição feminina. – Estas pétalas são-me apenas entregues a mim. Cada uma delas é mergulhada em mel e depois bebo pequenos goles da água vinda da cascata.

- As Madressilvas ajudam a superar o passado, e é disso que ambos precisam, apuram a delicadeza e a índole meiga.
Por fim, as Rosas brancas vão-vos ajudar a fortalecer o amor, quer físico quer espiritual, a pureza e a paz.
Agora deitem-se e aguardem as transformações.

Pétala entrega a cada um de nós duas grandes toalhas de algodão branco, com que nos cobrimos. Olho para cima e vejo um pequeno círculo de fadas do reino Efflorescence que nos começa a cobrir de pétalas. Acabamos por adormecer.


Domingo, 15 de Maio, 2005

› Em busca de algo...

Passo horas refugiada na cascata, busco algo que demoro a encontrar. A paz e a tranquilidade necessária para voltar a enfrentar a Yazmina. Aquela terrível maldição deixou-me de rastos, sem forças sequer para sorrir.

Delicadas flores começam a cobrir-me o corpo mergulhado na água: pétalas rosas de Clematite, malvas cor-de-rosa, madressilva e de rosas brancas. Várias borboletas esvoaçam em meu redor e uma mais ousada poisa no meu nariz. Quem mais poderia ser se não a Éris?

Sorrio e ergo os olhos, no cimo da cascata encontram-se Samantha, Jim, Aléxis e uma fada que não conheço.

Ergo-me enquanto Aléxis me abraça e me beija delicadamente o rosto. Sam e Jim estendem uma toalha e a desconhecida ajuda-os a colocarem a comida e as flores. Sorrio e numa atitude de criança empurro os mais novos para dentro de água, rimos à gargalhada e abraçamo-nos.

A pequena fada aproxima-se respeitosamente, Aléxis abraça-me e diz-me:
- Esta é a Pétala, do Reino Efflorescence.
Sorrio ao identificar o reino protector das flores e das suas poções. Cumprimentamo-nos e sentamo-nos a conversar de forma descontraída e animada.


Em busca de algo...

Sábado, 02 de Abril, 2005

› Regresso a Fabulous

Voamos o mais rápido possível para a aldeia de Fabulous. Entramos pela parte de trás do palácio que já havia sido avisada do nosso regresso por Pirro.

Ao pousarmos somos rodeados por uma comitiva enorme que tenta perceber se nos encontramos realmente bem.

Suspiro fundo e volto a erguer-me no ar, dirijo-me para a cascata e sem pensar duas vezes mergulho nela.

Ao retornar à superfície sinto pequenas gotas de chuva a cobrirem-me o rosto. Tento relaxar mas um choro compulsivo consome-me a alma. Choro em silêncio, sozinha, em harmonia com a natureza, numa busca incessante da tranquilidade e paz que ela emana.

Ao sentir passos ergo-me e sem querer ver sequer de quem se trata peço que me deixem sozinha.
- Assim que me sentir melhor regresso. Não se preocupem.

O silêncio volta a envolver-me e eu recolho-me no meu canto, com os meus pensamentos.

Regresso a Fabulous

Sábado, 26 de Fevereiro, 2005

› Reencontro com Yazmina

Para nossa segurança decidimos que os unicórnios se manteriam onde estavam, atados a dois pinheiros. Mesmo que alguém desse por eles e os idenficasse nunca poderiam ter a certeza se já tínhamos regressado ou não.

Ao sobrevoar a área limítrofe do reino começo a sentir aquele cheiro a podridão, a maldade, a morte, a guerra… Cheira-me a queimado, a destruição, a infelicidade.

A raiva aumenta, voo mais rápido que Aléxis e quando ele me apanha paro suspensa no ar. Olho-o e Pirro poisa no meu ombro. Mando-os silenciar. Desvio delicadamente uma folha de árvore e eis, então, que surge diante de nós o exército de Yazmina.

Sobrevoamos a área com a maior cautela, precisamos contactar com alguém do Reino Glorious. Olho para baixo atentamente e vejo Cibele, Kirios e Hélios, os três subtilmente escondidos.

Desço delicadamente e sussurro:
- Cibele, Kirios, Hélios… por favor não se assustem e façam o menor movimento possível.
Um a um viram-se lentamente e abrem um enorme sorriso ao ver-nos, aproximam-se de nós e trocamos informações.

Grande parte do reino esta destruído e dominado pelo exército da Yazmina, faltando apenas a aldeia principal, que é onde se concentra grande parte do exército de Glorious.

Sentimos movimentações e automaticamente levantamos voo, em silêncio e escondidos por entre os galhos dos pinheiros e algumas árvores aguardamos.

É então que vejo Yazmina a ser escoltada, não resisto e atiro-lhe uma pinha, acertando-lhe em cheio nas mãos que ficam a sangrar. Um grito dilacerante de dor faz-se ouvir pela clareira.

Descemos dos nossos esconderijos, formamos um cordão e ao surgir diante dela faço o meu melhor sorriso e falo com voz triunfante:
- Regressei e desta vez nada me vai deter. Vais acabar por morrer.

Num abrir e fechar de olhos desaparecemos, sem dar tempo a qualquer reacção que seja por parte do exército de Imaculous. Yazmina grita de dor e de desespero.

Reencontro com Yazmina

Terça-feira, 22 de Fevereiro, 2005

› Retorno

Passada meia hora encontramo-nos sentados num dos bancos do jardim. Sinto-me exausta e as lágrimas rolam desenfreadamente pelo meu rosto. Não aguento mais a minha forma humana e digo a Aléxis que caso prefira ficar pelo mundo humano que eu parto nessa mesma noite.

Olho-o atentamente, procurando perceber qual a sua intenção mas nada consigo descortinar. Suspiro e levanto-me em silêncio, quando me preparo para partir sinto a mão de Aléxis a prender na minha e o seu sorriso a surgir:

- Claro que te acompanho. Passo por tua casa ao anoitecer. – Dá-me um suave beijo nos lábios e partimos em direcções opostas.

O sol põe-se e nesse preciso momento a campainha toca. Desço as escadas à pressa e partimos. Embrenhamo-nos na serra, encontramos uma clareira e é aí, sob o olhar atento da lua e das estrelas, que mais uma vez atravessamos a barreira, desta vez bem abraçados e aconchegados no corpo um do outro.

Ao entrarmos no mundo das fadas um pirilampo surge, é Pirro, que nos espera. Ficamos surpreendidos e ao mesmo tempo surpreendidos pela sua presença. Afinal as coisas estão mesmo graves por este lado.

Retorno

Terça-feira, 15 de Fevereiro, 2005

› Sonho ou Realidade?!

Regresso a casa, sento-me no baloiço da árvore grande e fico envolta nos meus pensamentos e sentimentos.

Deixo-me envolver pelo ritmo do baloiço e quando dou por mim já não consigo parar de baloiçar, cada vez mais o ritmo aumenta, sinto o meu espírito a desanuviar, fecho os olhos.

É então que surgem diante de mim vários dragões, sinto algo a envolver-me e a transportar-me com eles. Suspensa no ar visualizo terrenos devastados pelo poder do mal, uma revolta interior começa a surgir e a raiva fala mais forte.

Incito o meu dragão a sobrevoar tudo o mais próximo possível, é então que sinto o seu cheiro, o cheiro da morte, do terror que a Morticia costumava usar para aliciar as suas vítimas a passarem para o reino do mal.

De repente regresso ao baloiço, zonza de tudo o que me aconteceu, salto dele e desato a correr para casa, em busca da pulseira e tento entrar em contacto com Aléxis. Ele dá sinal de vida e a única coisa que pronuncio é:

- Preciso ver-te, preciso falar contigo com urgência. Encontra-me no parque dentro de meia-hora.

Sonho ou Realidade?!

Sábado, 12 de Fevereiro, 2005

› Acredita e Sorri

Deitada na cama penso em Aléxis, em tudo o que fomos e em tudo o que nos transformámos. Recordo tudo o que passei neste ano ao seu lado: a angustia, o desespero, as lágrimas, os sorrisos, as cumplicidades, as trocas de olhar, os pensamentos, os silêncios, as palavras doces.

Não me sinto triste por estar longe dele, já senti mais vontade de chorar, neste momento sinto uma tranquilidade muito forte, que me preenche a alma e me faz inchar o coração.
Sinto-me orgulhosa de todas as pequenas batalhas que tenho ultrapassado sozinha, mas com ele sempre dentro de mim.

Decido fazer uma coisa que há muito não faço. Tomo duche, apanho o cabelo e coloco um boné. Saio de casa, respiro fundo e sorrio ao sentir o calor do sol a acariciar-me o rosto.

Subo a serra e entro numa pequena clareira, sento-me tranquilamente e colho alguns malmequeres. Quando olho para o meu lado esquerdo, surge uma maravilhosa coroa de girassóis e um pequeno pergaminho atado a ela:

“Artemisa é seu nome
Artemisa faz sorrir
Artemisa é o que é
Por ser incapaz de ferir.”

O coração acelera e os meus olhos percorrem o resto da folha a uma velocidade vertiginosa:

“Acredita em ti, tal como tens acreditado sempre. Acredita na tua força interior, pois voltarás a ser recompensada. Acredita e Sorri, porque um sorriso como o teu derrota tudo e todos os que te queiram ver no fundo do poço. A tua força interior é superior a qualquer coisa. Acredita e Sorri!”

Coloco a coroa de girassóis na cabeça e volto a sorrir.

Acredita e Sorri

Domingo, 30 de Janeiro, 2005

› Aprendizagem

Sentada, sozinha, no parapeito da janela observo a lua imensa que ilumina este mundo purificando-o com a sua luz.

Penso em tudo o que se tem passado e aos poucos apercebo-me que desde que reingressei no mundo dos humanos, voltei a crescer. Não é um crescimento físico, mas sim um crescimento interior muito forte.

Não consigo descrever por palavras ou frases a aprendizagem que sinto que fiz. Sinto que compreendo melhor as pessoas, que deixei de pensar tanto em mim e nos problemas que me rodeiam.

Se por um lado me sinto bem por ter efectuado este crescimento, por outro sinto-me triste, por só me ter dado conta depois, de muito provavelmente, ter provocado tantos estragos nos sentimentos das pessoas que para mim são fundamentais.

Olho a lua e revejo o rosto divinal de Aléxis, o sorriso puro de Samantha, as traquinices de Jim, a pose celestial da Feather… Todos os pequenos pormenores que me recordam o mundo das fadas invadem-me a mente.

Lágrimas de saudade e tristeza rolam pelo meu rosto e pergunto-me: ficarei totalmente curada desta maldição para voltar a ingressar no mundo que mais amo?! Voltarei a ser feliz ao lado de quem mais quero?!

Perguntas sem resposta, perdidas no ar, que ficarão para sempre guardadas numa das páginas da minha vida.

Suspiro e anseio por ver Aléxis de novo, por poder abraçá-lo, tocá-lo, senti-lo, olhá-lo… E ter a certeza que o sonho que começo a viver não se vai desmoronar ao mais pequeno sopro de uma leve brisa de vento envenenado.

Aprendizagem

Quinta-feira, 27 de Janeiro, 2005

› Aconchego

Acordo, rodeada pelos seus braços e com uma lágrima a salpicar-me o rosto. Abro os olhos e vejo Aléxis absolutamente esgotado e a soluçar comigo nos braços. Fecho os olhos com a sensação de que estou a sonhar e ao voltar a abri-los vejo um ténue sorriso nos seus lábios.

Ao sentir-me envolta no calor dos seus braços e ao sentir de novo o poder do seu olhar sobre mim sinto um aconchego imenso. Sento-me e seguro-lhe a mão com ternura.

O sol põe-se lentamente no horizonte e as palavras que trocamos são como o elixir da vida. Volto a ter vontade de sorrir, de viver, de correr, brincar, sonhar… Volto a ter vontade de viver.

Levantamo-nos, Aléxis oferece-me um chocolate para eu recuperar as forças. Caminhamos lado a lado de mãos dadas, de olhares pregados um no outro, e de sorrisos rasgados.

Será este o reinício?

Vou sonhar que sim!

Aconchego

Quarta-feira, 26 de Janeiro, 2005

› Encontro

Encontro-o, vejo-o junto a uma árvore e mal o reconheço. Se não olhasse para o seu pulso e não visse a pulseira passava por Aléxis, absorta nos meus pensamentos, como se fosse um desconhecido, mais um membro da mobília de uma rua humana.

Sustenho a respiração, das mãos escorregam-me os livros que trago. Aléxis olha para trás na tentativa de perceber o que se passa, ajuda-me e é ao segurar na minha mão que me reconhece. Aperta-ma com ternura e sorri.

Ao senti-lo tão perto, passado tanto tempo de não saber noticias, sorrio meia envergonhada e insegura. Seguro-lhe o rosto pelo queixo com delicadeza, fecho os olhos e sinto o seu cheiro, o seu toque, quero sentir simplesmente a sua respiração junto ao meu rosto.

Não me mexo, absorvo tudo o que nos envolve para mais tarde recordar.

Os meus pensamentos voam a mil à hora, mas quem queria ganhar asas, erguer-se no ar e desaparecer era eu. Sinto que o perdi de vez, mas é inevitável deixá-lo… Não consigo abandoná-lo… É impossível… Não consigo… Não posso… Não quero!

Sinto os lábios de Aléxis pertinho dos meus, beijamo-nos mas a tristeza consome-me mais do que o amor que sinto por ele… Corro a chorar, a soluçar, desesperada… Procuro uma fuga e não encontro.

Chego à zona verde da cidade, corro… corro… corro… corro no meu ser, os meus pensamentos é que correm, os meus sentimentos é que se misturam, porque na realidade eu encontro-me de joelhos no chão a ser abraçada com toda a força possível por Aléxis.

Oiço palavras ao meu ouvido, mas não consigo entender o que me diz, o meu choro, dor, mágoa e desilusão não me deixam ouvir…

Desisto, fico sem forças… Desfaleço… Não me recordo de mais nada.

Encontro

Terça-feira, 11 de Janeiro, 2005

› Um ano

Um ano se passou desde que iniciei esta aventura… Uma aventura que se tornou um vício, um vício quase impossível de conter.

Existem alturas que sinto um bichinho a roer dentro de mim e se não escrevo sinto-me sufocar, sinto falta de algo… sinto… sinto… sinto…

Sinto o mundo a escapar-me, sinto-me envolta numa onda sem me conseguir agarrar, sinto-me perdida no deserto sem água e sem comida, sinto-me cair num abismo…

Esta história faz parte de mim, muitas coisas da minha vida são relatadas nas entrelinhas da fantasia. Não me perguntem onde arranjo inspiração, onde vou buscar ideias para aqui e para ali. Algumas pesquisei na Internet e adaptei à minha história, outras saem espontaneamente.

Não prometo um avanço muito rápido na história, uma vez que em Mirandela ainda não tenho Internet, mas prometo algumas modificações de suster a respiração.

E há uma coisa que prometo… Provavelmente sairá um livro… Não sei quando, ainda não falei com ninguém… é apenas um sonho que acalento e que quero tornar realidade.

Obrigado por me ajudarem a manter este blog vivo… Obrigado.

Um ano

Domingo, 09 de Janeiro, 2005

› Uma barreira entre dois mundos

A barreira que separa os dois mundos é uma das fases mais marcantes para todas as fadas. Deixamos de ser seres pequenos, leves e com asas, para nos tornarmos pessoas como todas as outras.

Aléxis e eu damos as mãos, de frente um para o outro elevamo-nos no ar transportados pela força da barreira. O cheiro predominante a rosa, jasmim, eucalipto e pinheiro, misturado com cores fortes e borboletas que rodopiam à nossa volta, deixam-me estonteada e a perder as forças.

Sinto as mãos a escaparem das de Aléxis, mas no último segundo ele agarra-me… aperta-me pela cintura e abraça-me com força. Nesses segundos que se seguem mil e uma imagens me invadem a mente, sinto-me sufocar, tremo dos pés a cabeça, sinto-me nauseada, começo a chorar sem conseguir controlar.

Recordo-me da primeira troca de palavras com Feather, da missão inesperada que tinha pela frente; dos dons, defeitos e virtudes que me apontaram, para me persuadirem a tornar-me numa fada; do meu primeiro acto; do encontro com Morticia e de tudo o que se seguiu: as guerras, as aflições, os presságios. Do encontro com Aléxis… a troca de olhares, a paixão instantânea, os ciúmes, o amor… o imenso amor que nos uniu durante tanto tempo…

Do contacto com os duendes; da estruturação dos ataques; da destruição de Morticia e da ascensão de Yazmina; do regresso ao mundo dos humanos; do aparecimento de Hélios, Ceres, Éris e Métis em minha casa; da experiência na hospedaria; do reencontro com todas as fadas que tanto apostaram em mim e principalmente do brilho e sorriso no rosto de Aléxis quando me abraçou, me acariciou e sussurrou palavras doces e ternas ao ouvido…

Da descoberta de ser a princesa das fadas; do reconhecimento de todos os reinos pertencentes ao reino de meus pais; do surgimento de Andrew que complicou, em grande parte, a tranquilidade da nossa viagem; do afastamento gradual de Aléxis e, por fim, da maldição de que fomos vitimas…

Aterramos tranquilamente no chão, abraçados e a chorar… a chuva cobre-nos os corpos e a tristeza consome-nos a alma. Temos um grupo de pessoas à nossa espera. Observo o novo Aléxis que se me apresenta: mais alto que eu (como se isso fosse possível), com um corpo escultural, de olhos castanhos cor de mel, mas mantendo todas as feições do rosto que tão bem lhe conheço. Está lindo como sempre… ou ainda mais.

Já eu, tornei-me um pouco naquilo que era quando abandonei a vida humana, com a diferença de os meus olhos se tornarem esverdeados e o cabelo se ter tornado bem mais claro.

Neste momento há uma decisão a tomar… ou continuamos juntos mais uma dura batalha, ou vamos ter de nos separar.

Olhamo-nos em silêncio com medo de decidir, com medo do futuro… com medo…

Sussurro quase sem voz: “Gosto muito de ti”.

Uma barreira entre dois mundos.

Sábado, 01 de Janeiro, 2005

› De novo humana

Aléxis e eu saímos de dentro da cascata e regressamos abraçados ao palácio. Lá já se encontram grande parte das pessoas que mandei chamar. Os meus pais abraçam-me e as representantes dos reinos por onde já tinha passado acarinham-me como verdadeiras amigas.

Sentamo-nos todos no jardim principal do palácio, pouco tempo depois o Mago surge de rosto pesado. Levanto-me num ápice. Aléxis segura-me a mão enquanto pergunto expectante:
- Já chegou a alguma conclusão para a nossa cura?
- Infelizmente já, mas as noticias não são nada agradáveis.

O meu pai dirige-se a nós dois e acariciando-me o rosto e o cabelo afirma:
- Faremos tudo o que for preciso para salvar a vida dos dois. Tudo mesmo. O que é necessário?
- É necessário que eles se tornem humanos e ingressem no mundo tão bem conhecido pela Arti, só lá conseguiram acalmar e fazer o tratamento necessário.

Aléxis levanta-se e abraça-me carinhosamente:
- Quanto tempo demora a nossa ausência?!
- Um mês… - responde o Mago
- UM MÊS?! UM MÊS?! Eu não posso ficar um mês fora daqui, não consigo deixar os reinos indefesos…
- Não há qualquer outra hipótese, se querem continuar a viver, têm de ingressar no mundo o humano… Sem isso, não há qualquer hipótese de recuperação.

Suspiro e observo Aléxis nos olhos. Em silêncio decidimos partir juntos. Observamos um a um e despedimo-nos de todos…

Saímos do Reino Glorious… Montados nos unicórnios e de mãos dadas chegamos à fronteira do mundo humano, de olhos fixos um no outro atravessamo-la mentalizando-nos que tudo será diferente.

De novo humana

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